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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

Entusiasmo q.b.



" Todos os grandes movimentos que ficaram para a história foram os do triunfo do entusiasmo. Sem ele, nada de grandioso seria alcançado."
                                                                                                           (Ralph Waldo Emerson)

publicado por DesafiarTe às 14:23

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Terça-feira, 25 de Dezembro de 2007

Lixo e Cidadania

"Acabo de participar, como conferencista, no 6º Festival do Lixo e Cidadania realizado em Belo Horizonte, por iniciativa do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). Uma experiência estranha e riquíssima. Estranha, porque juntou o mais desprezível (o lixo) com o mais precioso (a cidadania) num tipo de evento (festival) a que associamos celebração e alegria. Riquíssima, porque aprendi ou reaprendi incomparavelmente mais do que ensinei.
Aprendi que os seres humanos, mesmo os mais excluídos e nas condições mais indignas – aqueles para quem o nosso lixo é um luxo e o endereço é um viaduto ou uma soleira de porta – não desistem de lutar por uma vida digna, assente na reivindicação de direitos de cidadania que, apesar de impunemente desrespeitados, lhes dão notícia da sua humanidade. São milhares de sombras móveis coladas a carroças desengonçadas que percorrem as cidades, atrapalhando os postais ilustrados e a indústria turística, populações descartáveis apesar de ganharem o seu sustento colectando para reciclagem o que descartamos como papel velho, vidro e plástico usados ou sucata.
Aprendi que muitas das lutas mais exigentes pela inclusão social exigem formas de organização e mobilização autónomas, já que as agendas dos partidos não contemplam as aspirações dos mais excluídos e os sindicados não reconhecem formas de trabalho que extravasam do modelo do capitalismo industrial. O MNCR agrega hoje centenas de organizações e cooperativas de que são membros cerca de 300.000 catadores. Por via da organização e mobilização resignificaram a sua auto estima e identidade, passando de miseráveis comedores de lixo a uma ocupação profissional, a de "catador de material reciclável", reconhecida pelo Código Brasileiro de Ocupações sob o número 5192. São, pois, recicladores que reciclaram a sua própria vida. Aprendi que a sociedade de consumo em que vivemos – baseada na incessante fabricação de necessidades que não temos e no endividamento extremo que nos impede de satisfazer as que verdadeiramente temos – despreza o saber ecológico daqueles que transformam os restos do consumo em consumo sustentável de restos. Calcula-se que o mundo produz anualmente 1,84 biliões de toneladas de lixo por ano, a maior parte dele resíduos sólidos que, por falta de reaproveitamento, poluem a atmosfera e contaminam o solo e as águas subterrâneas. Nem mesmo os movimentos ambientalistas dos países com milhares de catadores de lixo se deram conta destes seus aliados naturais, certamente não pertencentes, como eles, à classe média e muito menos portadores de discursos que escondem com a beleza das palavras a sujidade do mundo.
Aprendi ainda que há uma alternativa à economia do egoísmo – que o capitalismo transformou no modo natural de fazer, ter e ser –, a economia do altruísmo, das cooperativas e das organizações económicas populares onde a rentabilidade está ao serviço do bem estar e se inclui, dentro do tempo de trabalho, o tempo de alfabetização e de formação profissional, a ginástica para aliviar o stress muscular da especialização (separação, triagem e enfardamento de sucata) e a discussão sobre violações de direitos humanos no trabalho e em casa, nomeadamente a descriminação sexual e a violência doméstica. Neste domínio, há que registar a solidariedade prestada pelos serviços de extensão de universidades públicas que finalmente se deram conta que o seu futuro passa por um novo contrato social, não, como antes, vinculado às elites económicas, mas antes solidário com as classes populares e os cidadãos impotentes para fazer valer os seus direitos ante profissionais ininteligíveis e secretarias labirínticas.
Afinal, talvez eu já soubesse tudo isto. Apenas fiquei a saber melhor que os excluídos não precisam que lhes ensinem o que é uma vida digna. Precisam apenas de aliados que possam dar testemunho deles e, com isso, ampliar a sua voz e a sua luta. Suspeito que foi por isso que me convidaram." ( Boaventura Sousa Santos, Revista Visão, 27 Set.07)

publicado por DesafiarTe às 16:38

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Da Cidade Educadora à Organização em Centros Cívico-educativos... a minha utopia!

"A educação do novo milénio tem que ser vista à luz de todas as transformações sociais, económicas, culturais, etc. Com efeito, é um dado adquirido que todos precisamos de aprender ao longo da vida, não só para nos mantermos actualizados a nível profissional, mas também para podermos intervir como cidadãos conscientes. Por isso, há a necessidade urgente de conceber um sistema educativo que “não separe tão dicotomicamente o tempo de aprender do tempo de fazer, o mundo do ensino do mundo da cultura. Necessitamos de criar instituições educativas abertas a todos, e isso significa incluir todas as idades e todas as condições sociais”. Neste contexto, é pertinente conceber uma outra organização da escola e do sistema escolar, de forma a organizar “um sistema educativo que ponha todos em igualdade de condições de usufruírem formação e se abra a diversos agentes sociais e culturais, potenciando parcerias que estimulem, diversifiquem e valorizem as aprendizagens”.

 

Reconhecendo as lacunas do actual sistema educativo e das exigências do mundo de hoje, surgiu em Espanha, no início dos anos noventa, o conceito de Cidade Educadora, quando algumas pessoas começaram a perceber que a escola, só por si, não tinha capacidade para dar todos os conhecimentos que os tempos actuais exigem a cidadãos activos e conscienciosos.

Este novo paradigma de organização da educação pretende superar dicotomias e barreiras organizacionais, de modo a criar condições de aprendizagem e de vivência activa com iniciativas provenientes de várias áreas do saber, da cultura, do desporto, das artes, da economia, da ciência, “considerando-as como um investimento cultural sistemático que, à luz de uma formação permanente, possibilite elevar o nível cultural, profissional e social da população que partilha o espaço urbano.”

 

A Cidade Educadora ao organizar-se, no seu território, em centros cívico-educativos, pretende que estes sejam verdadeiros espaços de promoção da educação e da cidadania para os habitantes da sua zona de influência, mobilizando professores, pais, alunos, pessoas das diversas áreas da cultura e do saber, pessoas de todas as idades, de modo a criarem uma verdadeira comunidade de actores participantes e dinâmicos que dêem vida e expressão a uma outra maneira de fazer educação para/com todos.

Trata-se, assim, de congregar todas as sinergias, de disponibilizar todos os recursos patrimoniais, humanos e tecnológicos existentes na área dos centros cívico-educativos geridos de modo a serem devidamente ocupados, tornando possível que mais pessoas os possam utilizar, independentemente da sua condição social, etária ou profissional, de forma a que os habitantes tenham a possibilidade de desenvolver interacções relacionais e culturais promotoras de desenvolvimento pessoal e comunitário.

Porém, essa Cidade Educadora e esses centro cívico-educativos exigem do governo municipal uma vontade expressa não só de fomentar a participação de cada pessoa na sua própria formação, mas também na disponibilização dos espaços, equipamentos e serviços públicos adequados ao desenvolvimento pessoal, social, moral e cultural de todos os habitantes. Deverá, então, o governo municipal “assumir claramente a educação como ponto central da estratégia de desenvolvimento da comunidade e da organização do território que está sob a sua responsabilidade.” Trata-se de organizar o território e a educação dos que vivem de uma forma articulada “Tendo em vista uma dinâmica educativa sistémica, plural e congruente com as condições físicas e culturais existentes no espaço territorial considerado.”

(Pequena citação da  minha tese de mestrado)


publicado por DesafiarTe às 15:46

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